Sentindo-se fadigado, aquele era um dia como outro qualquer
para Agenor, que novamente acordava cedo para mais um dia de trabalho. Sua
idade não permitia muitas aventuras. Antes que o café ficasse pronto, lia rapidamente
as principais matérias do jornal, já que naquela manhã decidiu dormir alguns
minutos a mais. Seu vizinho, amigo de pescaria e de trabalho, já se aproximava
do portão de sua casa, para como de costume lhe dar a carona para o trabalho.
- Bom
dia, diz o velho amigo, com um grande sorriso.
Os dois
companheiros, tomaram o café normalmente naquela manhã, o dia de trabalho na
fábrica foi sem muitas surpresas. Agenor continuava com sua aparência cansada,
enquanto o Sr. Tadeu sorria para todos os colegas.
-
Enfim, em casa, murmurou o velho homem.
Logo, o
motoboy buzinou em seu portão trazendo sua janta. Ficou indagado com o olhar
daquele entregador, que a cada passo olhava para trás o observando. Disse boa
noite ao rapaz, com o intuito de despistar aqueles olhares duvidosos.
- É a
primeira vez que vem este entregador, mas o restaurante é confiável, disse ele.
Então deixou a preocupação passar.
A
campainha de sua casa toca pela segunda vez, com a comida ainda na mesa,
preocupado, verifica no olho mágico da porta. Era Tadeu, o que lhe deixou bem
aliviado. Tadeu era um amigo bem preocupado com a autoestima de Agenor, sempre
que surgia uma oportunidade, o chamava para jantar com sua família, de pessoas
humildes, que demonstravam muito carinho por este velho homem amargurado.
- Olhe
que grandes minhocas, disse Tadeu, sorrindo para Agenor, amanhã nossa pescaria
será ótima.
Agenor
admirava a felicidade daquele amigo, sua nobreza e dedicação em sua amizade,
porque não sou assim? Pensou rapidamente enquanto pegava o pote de terra.
- Que
belas minhocas, disse ele.
Toda
noite, com o velho abajur aceso, era que Agenor sofria com seu segredo, sem
ajuda de ninguém, refletia sobre seu erro do passado e criava forças para pedir
ajuda a alguém, mas sempre permitia que seu sentimento o aprisionasse.
O
sábado de pescaria foi bem produtivo, voltaram para casa com muitos peixes,
limparam e fizeram o famoso assado na churrasqueira, que a esposa e filhos de
Tadeu aguardavam ansiosamente sempre que eles retornavam de uma pescaria.
Ainda
naquela noite de domingo, sentou-se na varanda de sua casa para ler aos
detalhes seu jornal. Havia algo que o chamava atenção, um rapaz de moto,
passava por diversas vezes olhando para sua casa, já com seu estado de
irritabilidade, pegou o telefone e acionou o serviço de polícia, contando o
fato.
Quando
os policiais chegaram, identificaram pela placa da motocicleta não tratar-se de
algum suspeito, o nome do proprietário da moto era LUCAS MARQUES.
- Lucas
Marques? Perguntou o velho ao policial, com aparência pálida e voz trêmula.
O
policial assustado com o estado do velho, perguntou se estava tudo bem, mas foi
quando ele caiu em desmaio.
A
situação era assustadora, enquanto os policiais socorriam o homem, ele
despertou dizendo que estava tudo bem, repetidamente, não permitindo que os
policiais chamassem uma ambulância. Agradeceu, fechou a porta e entrou.
- Lucas
Marques, Lucas Marques, repetia sozinho o nome por diversas vezes. É certo que
ele estava muito assustado, confuso e naquele momento questionou-se sobre seu
grande segredo, jamais revelado.
- Será
agora? O que devo fazer?
Sozinho,
confuso, amedrontado, foi assim que passou sua noite em claro, suas emoções não
permitiam que raciocinasse. A campainha tocou, seu amigo o chamava para ir ao
trabalho, sem condições de fazer coisa alguma, justificou-se agradecendo, mas
ficou em casa.
Uma
decisão veio mais rápido do que imaginava, vou procurar por este rapaz, buscou
pessoas no auxílio à lista telefônica, encontrou alguns nomes, mas não se
tratavam da mesma pessoa, buscou ajuda no Departamento de trânsito, mas não
informaram o endereço do proprietário da moto, por se tratar de sigilo, buscou por
informações na vizinhança, mas nada.
Deixou muitas pessoas preocupadas, não se abriu com ninguém,
tratando o assunto com total sigilo. O tempo passava, foram 7 dias de muita
busca e silêncio, aquele rapaz não mais passara na rua de sua casa, as coisas
ficavam mais difíceis.
O
telefone tocou, correu para atender, dizia alô insistentemente, mas ninguém
respondia, tocou por muitas vezes naquele dia, porém o mesmo acontecia. Até que
ainda naquela noite, uma voz disse: “alô”, pálido o homem disse alô e
perguntava quem era, bo fundo uma resposta: “sou eu, a quem tanto você
procura”, desesperado para ser correspondido em uma conversa, mas só pode
escutar o bipe de desligado do telefone.
Agenor,
um homem que a 25 anos carregava uma culpa e a espera de um milagre, sentia-se prestes de acabar com sua amargura e
tristeza, sua oportunidade de tentar solucionar o erro do passado, tornava-se
cada vez mais próximo a cada dia. Os dias foram passando, sua agonia era cada
vez maior, até que passados 20 dias, em puro silêncio e expectativa, uma moto
para na porta de sua casa, Tadeu observava da janela de sua casa todos os detalhes,
mesmo em silêncio, ficava atento a qualquer imprevisto, observou o rapaz
retirando o capacete e indo em direção a campainha, assustado, aguardou
qualquer movimento diferente para que pudesse agir.
Agenor,
trêmulo e corajoso, foi até a porta e perguntando quem era, escutou um sussurro
assustado que dizia:
- Lucas
Marques, sou eu, Lucas Marques. Agenor pode viver um filme em sua mente em
questão de segundos, eram tantas lembranças, tantas emoções, pouco controlado em
seus sentimentos, tocou no rosto daquele rapaz e só pode dizer:
- Meu
filho! É você meu filho?
O
rapaz, muito emocionado, abraçou Agenor e ali puderam passar muitos minutos de
um abraço apertado.
Aquele abraço
refletia um intenso sentimento na vida dos dois, Agenor que vivera 25 anos a
espera de um reencontro com seu filho, após de tê-lo deixado com uma família no
interior.
- Me
perdoe, eram as palavras que soavam diversas vezes no ouvido do filho.
Tão
logo, a notícia se repercutiu por toda a vizinhança, Lucas pode fazer parte dos
melhores dias de vida de seu pai, viveram momentos felizes, sem amargura, sem
dias tristes, compartilhados de muitas histórias de vida e companhia de amigos,
de fato, Lucas trouxe para os últimos 11 meses de vida de seu pai tudo o que de
fato ele aguardou por 25 anos.