quarta-feira, 16 de setembro de 2009

SEU COMO O COLIBRI

Algumas semanas atrás lendo o livro Nada dura para sempre, de Sidney Sheldon, pude viver em algumas páginas aquilo que chamo de comunicação intelectual. O autor, em sua história, envolveu um romance que muito me chamou a atenção. Eu, que sou um romântico usual, tinha a sensação de querer entrar nas páginas daquele livro e intervir nas decisões da personagem, que vivendo um romance perigoso, foi morta pela pessoa que amou. Ao final da história, gozei de uma sensação ambígua, sem nunca tê-la sentido, pelo puro prazer da leitura, que me fez envolvente em cada página e pela fragilidade da personagem que se deixou ser levada por um ser tão controverso. Eu queria modificar aquelas linhas, parecia ter me tornado íntimo da personagem e queria ela viva, queria protegê-la das situações perigosas, ela já havia se tornado alguém próxima, como alguém da família.Quando terminava de ler algumas páginas da história, já tomado de um envolvimento total, tinha em minha mente uma continuação ideal para os meus textos, ali, envolvido e com o desejo que tornar a vida daquela personagem mais feliz, tinha que me fidelizar, colocando no papel minhas idéias e meus sentimentos. Assim, aflorado de idéias, tornava meus escritos mais emocionantes e perceptivos à história desfrutada.Ao passar dos dias, sentindo-me ainda transbordado com a história lida, sabia que a indignação daqueles fatos precisavam ser diferente, primeiramente em mim. Era notório que os meus sentimentos estavam aflorados e meu único desejo era fazer uma história nova. Foi quando, coincidentemente conheci uma moça, era linda, tinha características muito parecidas da personagem do livro, como se em minha mente tivesse criado uma fantasia, aos poucos ela se tornava real. Comecei a dispor de um carinho encantador, uma atenção indispensável, e um único diferencial, usava destas atitudes para encantar positivamente, diferente do personagem que usou de táticas sedutoras para deixar a personagem dominada ao seu jogo.Ao modo que leio um livro, sou conduzido a vivenciá-lo. É óbvio que as emoções de uma história são como uma vida encaixada em letras impressas de um papel. Ler com o coração escancarado e com atenção é o mesmo que equiparar a história em minha própria vida, absorvendo os fatores positivos e negativos. Imaginar a história de um jeito novo, diferente de como o autor a escreveu, pois certamente ao ditá-la, imaginava o personagem de um jeito particular, as roupas com suas cores prediletas, os ambientes com a decoração talvez pouco diferente de seu lar. Desta forma, imagino os personagens em uma percepção oposta do resto dos leitores que também possuem seus interesses.Quando paro para refletir sobre um livro lido, tento imaginar a vida do escritor, os fatores que o levaram a prescrever suas histórias e a tornarem real para si e todos os outros leitores. Assim como eu, quando me derreto em palavras e absorvido pelas minhas próprias emoções, arrisco as palavras formando histórias, e quando terminado de escrever, ponho-me a pensar, de onde saiu todo o conteúdo, correlaciono em minha vida, tento entender os fatores, minha emoções, e assim compreendo minha imaginação. Quando peço para alguém ler e opinar o texto que escrevi, constato ainda mais as minhas interpretações, pois o que escuto é sempre uma pergunta, você escreveu de você mesmo?Por isso, ler é eu viver um mundo só meu, da forma e do tamanho que eu quiser não podendo qualquer pessoa tomar meus sentimentos e esvaziá-los. Além disso, ler é eu viver a vida do outro, sentir com sentimentos alheios, canalizar as energias e cultivado de uma alegria imensa, apoderar-me de um todo, unindo-me a vida do outro por sua história escrita e que pude transbordar-me.Quando leio, adquiro a experiência do outro, torno os sentidos daquele que fala e exerce seus direitos e sentimento. Deixo-me ser apoderado aos textos que pouco a pouco se relacionam em minha vida, tornando-me parte da história e interlocutor.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Contratempos

Estava no portão de minha casa, por volta de umas oito horas, era uma noite pouco escura, não apareciam às estrelas no céu, provavelmente formavam-se nuvens de chuva. Um pouco distraído, quando de repente vi um carro se aproximando de minha casa. Era um carro mal tratado, não conseguia enxergar a fumaça preta, mas sabia que ela existia, devido o mau cheiro. No volante daquele Ford velho, havia um homem com uma aparência assustadora. Cabelos grisalhos, com barba por fazer, um rosto marcado de cicatrizes. Parecia estar perdido, olhava aos lados, mas mesmo assim me preveni fechando logo o portão. Quando comecei a me distanciar indo em direção a porta mais próxima de mim, senti muito medo ao ouvir a voz daquele homem, meu corpo se paralisou, fiquei trêmulo e não conseguia pensar em mais nada, a não ser gritar por ajuda. Ainda calado, abrindo a porta, ele disse espere, eu não queria nem saber o que o homem tinha a falar, só sabia sentir medo. Colocou sua mão na cintura, pensei que estava sacando uma arma. Pare, ele disse, com uma voz grossa e ríspida. Corri o mais depressa que pude, tranquei a porta e muito nervoso peguei o telefone para ligar no serviço de emergência. Alô, disse a atendente, inadequadamente. Eu não tinha palavras, minha voz travou e nada conseguia fazer. Dei alguns passos até meu quarto e tentei me acalmar. No Telefone eu escutava a atendente dizendo alô repetidamente, até que o sinal de desligado se fez. Imaginei que pudessem identificar o número do meu telefone e descobrirem meu endereço, então logo estariam ali.

O portão de minha casa era fortemente sacudido, como se aquele homem estivesse nervoso querendo derrubá-lo. Lembrei-me de uma história que minha mãe contou antes de falecer.

Quando grávida de meu irmão, seu filho primogênito, estava voltando da mercearia quando foi abordada por um homem, com as características muito parecidas deste na porta de casa. Ficou tão extasiada que desmaiou rapidamente. Acordou somente no hospital, onde recebia os primeiros socorros. Mamãe era uma pessoa muito nervosa, não diferente de mim.

Fiquei pensando que pudesse acontecer o mesmo comigo, então eu não conseguiria nem mesmo me defender daquele assassino, assim era como eu pensava a respeito deste homem. Escutei sirenes se aproximando e fiquei logo aliviado. Em seguida escutei umas arrancadas de pneu, mais aliviado imaginei que estava fugindo do portão de minha casa.

Alguns minutos se passaram e nenhum carro de polícia parou. Fiquei vigiando pela janela do quarto de minha irmã, que proporcionava uma visão maior da rua. Mais calmo, peguei o telefone e redisquei a polícia. 190 emergência atendeu a telefonista novamente. Expliquei o caso a ela, disse que enviaria uma viatura para verificar o local. Outros longos minutos se passaram e nada aconteceu, liguei novamente e continuei no aguardo.

Revoltado com a segurança deste país pensei, que mal fiz para ser tratado com tanta omissão. E se realmente fosse um assassino, hora essa eu já estaria morto. Neste país, é necessário ter um nome muito conhecido para ganhar atenção merecida. Wagner Augusto, deve ter pensado a atendente, o que ele quer que façamos? Quem ele pensa que é para merecer prioridades. Wagner é meu nome de batismo, o nome que recebi de minha mãe, pensei comigo. A atendente, que não demonstrou solicitude, deve neste momento estar desenhando nas palavras de meu nome, escritas em seu bloco de notas, e repetindo, Wagner, com W ou com V, tanto faz, não temos pessoal para atendê-lo mesmo.

Sou pagador de impostos, e daí? É assim que pensam, e assim que agem. Porque é que não melhoram o sistema de segurança deste país? Minha vida tem de ser zelada, ou logo terão na página do jornal, Wagner Augusto, jovem de 26 anos é morto em sua casa por não receber atendimento policial em tempo hábil. E mesmo assim, pouco se importam, porque o sistema judiciário arquivaria meu caso em poucas semanas, onde nestes arquivos deveriam constar muitos nomes iguais ao meu, com W, com V, então acrescentariam o meu nome, com W, e com G mudo, pois existem pessoas que ignoram o G mudo escrevendo Waguiner.

Depois de 58 minutos, precisamente contados, escuto alguém chamando no portão de casa. Senti medo, mas decidi olhar pela janela. Era um homem alto, negro, cabelo volumoso, tinha na mão direita uma arma. O policial chamou novamente, desta vez pelo meu nome, Wagner. Senti-me seguro e o atendi pela porta da frente, deixei-o entrar para olhar no resto da casa. Após verificar a área, começou a escrever a ocorrência, fez algumas perguntas pertinentes, deu-me orientações caso houvesse reincidência. Balancei a cabeça concordando com o que disse. Deu-me a ocorrência para assinar, certificando de sua presença e suas orientações, lá estava um nome, que não era o meu, Vaguiner. Dei as costas e entrei.

Autor: Wagner Augusto dos Santos
Criação: 07 set 2009